Religiosidade: Do Mundo para o Brasil

...do Brasil para a Cidade de São Paulo

Por Michelle Palermi 17/10/2019 - 11:15 hs

Religiosidade: Do Mundo para o Brasil
Livro-reportagem mostra, de maneira informativa e imparcial, a religiosidade na cidade de São Paulo

RELIGIOSIDADE: DO MUNDO PARA O BRASIL
(Trecho do livro Religiões de São Paulo, por Michelle Palermi)


Em tempos que parecem tão distantes, quando o homem vivia em civilizações primitivas, já havia evidências de algum tipo de adoração. Essas manifestações foram crescendo durante os séculos e se distinguindo como diferentes formas de fé. Estudos antropológicos e arqueológicos concluem que nunca existiu um povo, em qualquer parte do mundo ou em qualquer outro tempo, que não fosse de certa forma religioso.


A religião está presente em muitos momentos na vida em sociedade. Seja em inspirações artísticas ou em doutrinas sociais, os devotos se apegam a determinada fé e, de acordo com sua cultura, podem viver ou até morrer por ela. Pode ser “uma moralidade tocada pela emoção”, segundo o escritor inglês do século XIX, Matthew Arnold, ou “um sentimento de absoluta independência”, conforme define o teólogo alemão, Friedrich Schleiermacher. Afinal, o que é religião? É difícil generalizar o sistema de crenças.


Fascinantes, complexas e, certas vezes, inexplicáveis. Assim são as religiões do mundo.  Pensando em toda essa história, de diversos povos e culturas que geraram diversas ideologias, fizemos reportagens neste livro que mostram a ligação dos indivíduos com a sua fé de diversas maneiras na capital paulista, especialmente aquelas crenças menos conhecidas ou comentadas. Mas afinal, como surgiram as religiões? Toda igreja, seita ou culto têm um ser central, em quem é depositada parte da responsabilidade e adoração em busca da paz espiritual. No budismo a idolatria é ao Buda, no cristianismo a Jesus Cristo, na Umbanda ao senhor Olorum, e assim por diante. Apesar das lideranças, não são deles que surgiram as diferentes formas de fé.


A religião já exercia sua função social um pouco antes da existência dessas figuras, por causa da necessidade do ser humano buscar paz interior e a explicação para os acontecimentos da vida. Esse instinto e necessidade fez com que o homem desenvolvesse algumas maneiras para estar no estado sublime de energia e espiritualidade com algo superior.


Essas questões religiosas estão muito ligadas ao intelecto e ao sentimento humanos. Dentro de alguns conceitos estudados observamos como a vida em sociedade pode estar ligada àquilo que cremos e vivenciamos. Se na religião prega-se algo, muito provavelmente se pregará o mesmo com o próximo na vida em sociedade, influenciando em escolhas políticas, econômicas e do próprio cotidiano.


No mundo, algumas religiões estão em maior evidência e conquistaram grande número de seguidores. Em primeiro lugar, segundo diversas pesquisas, estão os cristãos, sempre na liderança quando se trata de quantidade de seguidores. Porém, observa-se certa queda no número de praticantes conforme novas ideologias começaram a ser aceitas pela sociedade. Islamismo e hinduísmo vêm logo na sequência, entre as mais idolatradas do planeta, enquanto o judaísmo ocupa a oitava posição entre as 10 religiões mais seguidas no mundo.


As religiões tradicionais chinesas também conquistaram considerável número de adeptos, milhões deles, como no budismo, xintoísmo e sikhismo. Suas origens orientais são pouco conhecidas pela cultura brasileira, mas mundialmente há grande visibilidade e milhões de praticantes. Aqueles que acreditam na vida do espírito após a morte e na reencarnação através das doutrinas do mestre Allan Kardec, continuam a busca por mais espaço e credibilidade. O espiritismo já  cresceu bastante, foi conquistando muitos seguidores e hoje figura entre as 10 maiores religiões mundiais. Porém, muito ainda se questiona sobre os fatores mediúnicos e sua veracidade.


Na “lanterninha”entre essas crenças mais disseminadas está a crença Wicca, que tem influência pré-cristã e admite práticas oriundas da Europa Ocidental. Com seus mitos e rituais, a religião da magia busca mais adeptos, atualmente são em torno dos 20 milhões.


Do Zimbabwe aos Estados Unidos da América, cada país tem suas crendices e verdades absolutas religiosas. Cada povo escolhe sua maneira, seus costumes e seu Deus, seja por fortes tradições ou somente para ter algo a crer. Há também quem desdenhe de qualquer admiração por um deus que não se vê. Muitas são as opiniões e os pontos de vista sobre as teorias religiosas. No Brasil não é diferente. Temos uma mistura de povos, etnias, estilos e religiões. No caso da nossa pátria, o primeiro lugar no ranking dos mais frequentados templos, assim como no resto do mundo, é ocupado pela igreja católica. Por suas raízes tradicionais acaba atraindo

grande parte dos adeptos do Brasil, ainda que muitos não pratiquem sua doutrina ao pé da letra. Com seguidores fervorosos e uma grande massa crente, os evangélicos estão no segundo lugar. Ainda assim, os protestantes ficam cerca de 30% abaixo dos cristãos em termos numéricos.


Em meio aos movimentos tradicionalistas e fechados, os cultos espíritas estão entre as três maiores religiões do Brasil. Na sequência chegam as Testemunhas de Jeová, com pregação de dogmas e princípios, de porta em porta. Entre atabaques e afoxés, a Umbanda tem cerca de 410 mil seguidores. Sua origem brasileira, assim como tantas outras, alcançou a evolução com o polissincretismo religioso, levando o seu conhecimento até muitas pessoas. Budismo, novas religiões orientais - Igreja Messiânica e os fundamentos do Johei, por exemplo -, assim como o judaísmo, buscam espaço no país tropical, alcançando aos poucos maiores massas.


No meio deles está o Candomblé, derivado da cultura africana, com culto aos orixás e às forças da natureza comandadas por seus deuses. Por último, mas também muito procurada pela nação brasileira, está a tradição esotérica. O esoterismo é tido como religião, mas está presente em qualquer crença que tenha como objetivo desvendar o sentido oculto das coisas. Com suas correntes e ideologias para a vida individual e social, conquistaram 74 mil pessoas, aproximadamente. Além desse panorama inicial, aos poucos vamos conhecendo neste livro mais de cada uma dessas ideias religiosas para compreendermos suas culturas. Começo convidando para um mergulho nas religiões em São Paulo, assunto do próximo capítulo.


DO BRASIL PARA A CIDADE DE SÃO PAULO


Carros parados por todos os lados, o barulho das buzinas já é rotina para quem vai e vem pelas calçadas. O ritmo cinza e agitado toma conta das pessoas que, com o passar do tempo, nem sequer percebem a grandeza de culturas e vivências ao redor. Assim é a cidade de São Paulo. Acolhe todas as cores, crenças e estilos, mas nem todos percebem tal variedade, como na esquina do centro da cidade, onde há uma mulher de cabelos longos e saia abaixo do joelho, a segurar a bíblia e gritar aos quatro cantos quem é o seu Deus. Na mesma esquina já passaram jovens, que não acreditam em um Deus algum, com vontade de serem os deuses do mundo. O rico, o pobre, o ateu e o pregador andam pelo mesmo asfalto.


Assim São Paulo se faz. Tem para todos os gostos, para todas as graças e para todos os admiradores, mesmo os menos atentos. Admirável cidade. E quem não quer saber mais de um lugar assim? A maior cidade do Estado de São Paulo. Todas essas pessoas, com suas crenças e descrenças, fazem o coração do Estado e da capital com nomes de santo baterem. O único Estado e capital do País a carregarem o nome de um profeta.


Santificado seja São Paulo, o lugar da correria, do mar de gente, dos trabalhadores, religiosos e descrentes. E no meio dessa multidão de pessoas e pensamentos, poucas vezes paramos para pensar no quão importantes foram suas bases religiosas. São Paulo é uma das fundações mais antigas do Brasil e era conhecida como Vila de São Vicente. Novamente as raízes do São. Um santo lugar.


Ex-pecador, santo glorificado e profeta. Paulo. Tantas são as faces daquele que dá nome à cidade e ao Estado. O convertido cristão tornou-se um dos maiores missionários católicos e hoje anda presente em todos os cantos da terra da garoa e do interior. Lembrado e venerado por quem crê nos santos. Entre tantos Paulos, tantas crenças e tantas histórias, o peso que o nome traz à capital paulista é religioso e essencialmente católico. Os números mostram qual é a cara e verdadeira crença de nosso Deus. Uma pesquisa realizada pelo Ibope em 2013 revelou que 60% dos paulistas são católicos. A base católica quase sempre foi predominante nas terras paulistanas.


Com base em dados do último Censo, de 2010, quando foi realizada uma pesquisa minuciosa sobre as religiões de acordo com localização e nível social, os católicos são a maioria e se distribuem de forma homogênea pelas regiões da cidade. Mas o que se sabe é que muita gente não segue apenas e totalmente a Bíblia cristã. Muitos que se dizem católicos, quase nem vão à Igreja, ou até mesmo fazem parte de outras crenças, mas não têm coragem de dizer.


Apesar da inegável e decisiva presença religiosa, até hoje a única capital que mereceu um trabalho jornalístico sobre um aspecto cultural de muitos dos seus pilares religiosos foi o Rio de Janeiro de 100 anos atrás. Em meados de 1905, o escritor e jornalista João do Rio, que gostava de escrever sobre lugares e pessoas de maneira aprofundada, dedicou seu tempo para falar dos aspectos mitológicos e religiosos do Rio de Janeiro. Apesar de baseado em diversos pré conceitos, escreveu o livro “As religiões do Rio”. Através da sua vivência e de seu olhar crítico sobre as crenças que rondavam a cidade maravilhosa, descreveu as diferentes religiões e seus impactos na vida de cada um dos indivíduos.


Em São Paulo, onde tanto há para se desvendar e estudar sobre seus quase 500 anos, nenhum livro-reportagem foi feito para falar das religiões no decorrer desses séculos. As bases religiosas são de longa data e muito mais importantes do que imaginamos.


A ideia de glorificação já começava lá atrás, com a Fundação da Cidade de São Paulo. Padres jesuítas, conhecidos como José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, subiram a Serra do Mar, em 1553. Eles buscavam um lugar seguro para se instalarem e poderem catequizar os índios. A catequese e as ideias da religião na sociedade eram de extrema importância naquela época. O lugar que os padres procuravam foi encontrado com os ares frios e temperados, como os da Espanha, no planalto de Piratininga.


Fato emblemático desse processo histórico foi o dia 25 de janeiro de 1554, quando os religiosos celebraram uma missa, na construção de um colégio feito próximo aos rios Tamanduateí e Anhangabaú. Esse dia ficou marcado como o aniversário da cidade paulistana. Cerca de cinco séculos mais tarde, o povo de Piratininga se tornou uma cidade com 11 milhões de habitantes.


Das construções realizadas por padres e índios na época, restou o Patteo do Collegio, que hoje é um dos pontos turísticos da capital. Outro memorável ponto turístico é a catedral da Sé. O homem que construiu esse marco social e religioso foi responsável por outras construções igualmente históricas e consagradas, entre elas a

Catedral de Santos e a Igreja da Consolação. Trata-se do arquiteto alemão Maximilian Emil Hehl, que planejou todas as belas estruturas em estilo neogótico. Embaixo do altar sagrado estão enterrados os grandes nomes religiosos que viraram mártires católicos. A cripta guarda em seu salão relíquias, bispos e arcebispos de São Paulo. Além deles, corpos de personagens importantes da história do Brasil também ganharam descanso eterno nos leitos da catedral.


Muitos pontos católicos marcam a cidade cristã, como o mosteiro de São Bento, que é detalhadamente decorado com motivações religiosas e oferece aulas de música para incentivar jovens e aproximá-los do culto. Já a Paróquia São Francisco de Assis, inaugurada em 1647, possui o acervo de imagens mais estimado da ordem franciscana no Brasil. A Igreja da Ordem Terceira do Carmo, a Igreja de Santa Ifigênia e a Igreja de Santo Antônio são outras históricas e emblemáticas instituições católicas localizadas no Centro de São Paulo. Inúmeros são os “São”, santos e santas dos paulistas. São João do Pau d’Alho, São José do Rio Preto, São Joaquim da Barra. De Santa fé do Sul a Santo Antônio da Alegria, o Estado é constituído com 57 cidades homenageando os Santos. Na capital temos diferentes religiões sendo cultuadas, desde as mais “comuns”, até aquelas que poucos conhecem. Nos dias de hoje, essa diversidade religiosa é um pouco mais aceita, vencendo alguns preconceitos enfrentados em

tempos não tão distantes. Religiões como Wicca, Catimbó e Igreja Messiânica são pouco conhecidas e muito julgadas. Vamos mostrar neste livro um pouco de cada uma delas, assim como as mais populares – católica e protestante - que tiveram forte influência nas construções de crenças e ideais para a sociedade.


Religião, crença, fé: aquilo que nos preenche e nos faz ir além. O sentimento de buscar, de conhecer, de renovar e de superar. A fé pode nos causar tudo isso e muito mais. Mas quem é o responsável pela fé? Será o padre da Igreja católica ou o pai de santo das rodas de candomblé? A fé movida dentro de cada um pode vir por diferentes caminhos e veremos neste livro quais são alguns deles. Desta forma, poderemos compreender melhor uns aos outros e romper muitos paradigmas ainda existentes na sociedade. Toda essa história religiosa paulistana contemporânea merece ser reportada para tentarmos compreender melhor o que nos leva a determinados caminhos.


É difícil definir religião. Muitos caminhos podem despertar a fé e ao estudá-los, percebemos  certas semelhanças, mesmo entre os menos conhecidos e praticados. A religião desempenha o papel de dar um senso ético e moral na vida das pessoas. Cada um carrega seus conceitos, vive e prega a sua crença de determinada maneira. Apesar disso, os fios comuns entre esses rituais e hábitos a definem como o maior elo do ser físico com o ser espiritual. Através dos meios religiosos as pessoas buscam o sentido do amor e da dor, do céu e do inferno, do certo e do errado. Existem algumas características que unem essas crenças. A doutrina, a mitologia, a experiência religiosa de cada ser, a instituição religiosa – que vai dos gloriosos templos católicos aos humildes mosteiros budistas -, o conteúdo ético, os rituais realizados e os objetos sagrados. Esses são alguns itens presentes na maioria das religiões.


A doutrina surgiu de origens bíblicas e raízes católicas. Com as diferentes crenças que vieram ao decorrer dos séculos essas doutrinas sofreram adaptações. Esse termo serve para dar diretriz aos ensinamentos das religiões. Na Igreja católica seguir a doutrina é sinônimo de seguir aquilo que está escrito na bíblia. Já na Umbanda, essa doutrina é estar de acordo com as regras do templo frequentado, como por exemplo usar roupas brancas, guias e cultuar os orixás dentro do solo sagrado. E em religiões tão pouco comentadas, como a Wicca? O grande foco é a busca pelo autoconhecimento, a harmonia com poderes supremos e seguir os ritmos e ciclos da natureza. Seja na missa (cristã), na gira (umbandista) ou no paganismo (wicca), todos têm seus fundamentos e pregam pelo contato do ser com energias maiores –algo que eles acreditam elevá-los a um grau espiritual de paz e sabedoria. Real ou mitológico, cada um cria uma ideologia para explicar aquilo em que acredita. Quando

pensamos em mitologia vem à cabeça algo antigo, histórico e transmitido há centenas de anos. A característica mitológica presente nas crenças é o estudo e interpretação de lendas que descendem de alguma cultura. No caso das religiões, cada uma explica seu surgimento através de uma história emblemática e marcante. Até a “new gospel” Bola de Neve, que será reportada neste livro, tem suas mitologias e histórias. Segundo os fiéis dessa Igreja jovem, que teve o primeiro culto em janeiro de 2000, a história de seu surgimento confunde-se com a própria história do Apóstolo Rina. O que começou com uma hepatite, dores muito fortes e uma experiência pessoal com Deus, teve como consequência uma reunião descompromissada em 1993. Através disso, criou-se um nome que expressava a situação do grupo, bola de neve: “começando pequena, vira uma avalanche”, de acordo com a descrição de seus seguidores.


Da antiga e lendária história de Jesus Cristo na cruz até os cultos africanos. Seja a tradicional ideia cristã ou a revolucionária avalanche gospel. De templo em templo, de crença em crença, cada ser cria sua experiência espiritual.