Umbanda: a fé através do som do atabaque

111 anos de história

Por Michelle Palermi 15/11/2019 - 23:29 hs

 “Viva a Deus”, diz o Pai de Santo ao entrar no grande salão seguido de, aproximadamente, uns 60 médiuns. Três homens estão atrás de seus atabaques, com olhar concentrado e dando pequenos rufos no couro que indicam que o culto, ou a gira, está para começar.


Os filhos da casa estão enfileirados, todos usando roupas brancas e guias, seus colares coloridos no pescoço. As mulheres usam saias armadas de renda, com uma bata de tecido leve e transparente, além dos pontos e códigos religiosos bordados. Os homens estão com suas calças sociais brancas e uma doma (camisa utilizada por todos os homens, feita especialmente para o culto) igualmente branca, com alguns detalhes em vermelho – cor do orixá ogum, que rege a casa. Nos pés, as mulheres usam sapatilhas e os homens sapatos sociais, tudo na cor da paz. O grande espaço do terreiro se torna pequeno em meio a tantos detalhes. As paredes brancas, com o chão em azul piscina, transmitem grandiosa tranquilidade e é fácil entrar em sintonia com as pessoas que ali estão.


Uma cortina branca separa os médiuns dos que buscam a caridade. As pessoas vão ao terreiro querendo respostas, palavras amigas, energias renovadas ou até soluções impossíveis. Alguns acreditam nos orixás, outros querem testá-los. Todos aguardam sentados e em silêncio o início dos trabalhos que serão realizados naquela tarde de sábado.


Com o crescimento de outras religiões, os cristãos começaram a migrar e conhecer novas ideologias e crenças. Mesmo nem sempre assumindo as mudanças de credo, as pessoas foram enxergando outras possibilidades de desenvolver a fé. Em certos casos, acaba acontecendo uma competição no ranking de seguidores. A Igreja Protestante, por exemplo, vai contra tudo o que é pregado na Umbanda e levanta bandeiras negativas da religião afrodescendente para muitos segmentos sociais e até políticos.


Muitos líderes da religião protestante tomaram cargos na política de São Paulo e dificultaram as leis para as religiões contrárias às suas ideias. Mas com umbandistas defendendo sua própria religião e se unindo cada vez mais, conquistaram espaço nos âmbitos social e político. As leis começam a se ser modificadas.

Mais um “Viva a Deus” ecoa. Abre-se a grandiosa gira, com olhares ansiosos e concentrados ao redor.

Um homem desce as escadas entrando no salão com um defumador, cheio de carvão em brasa, acompanhado por outro homem que segura uma pequena tigela de aço com ervas dentro. É a hora da defumação.


– Defuma eu babá, defuma eu para os trabalhos começar.


Todos começam a cantar. O atabaque vai soando um ritmo leve e envolvente e os médiuns vão de um lado para o outro em um sincronizado “curimbar”, a dança feita para saudar os orixás. A dança é acompanhada com palmas no mesmo ritmo da música.


– Eu vou defumar a minha gira, eu vou defumar o meu conga, eu vou pedir licença a Olorum, eu vou pedir licença a Iemanjá…


Continua o coro de vozes devotas e animadas. O líder espiritual comanda com olhares e gestos quando começa e quando termina a cantiga. Todos tem um respeito muito grande por ele e os que vão chegando se ajoelham à sua frente, beijando sua mãoe levando à testa.


Só no Brasil, temos aproximadamente 380 terreiros que abriram suas portas entre 1888 e 2015, segundo números atualizados no blog Registros da Umbanda. Esse número corresponde aos templos que foram oficializados de alguma maneira, mas temos outros lugares que seguem a religião e podem não estar contabilizados. Entre esses, muitos já fecharam e alguns surgiram. Mas somente 15 terreiros no Estado de São Paulo têm filiação com o Primado de Umbanda, sendo sete com sede na capital paulista. Atualmente, aTupã Óca do Caboclo Irajé e do Pai Folha Seca não está mais entre eles.

O caboclo chega, ajoelha no chão e dá o seu “ilá”, grito usado como código para o espírito avisar que chegou no terreiro. A entidade é um guerreiro de ogum e, ao pegar a sua espada na mão para trabalhar, anda por todo o corredor do terreiro abençoando os filhos. O momento é de pura devoção, os médiuns abaixam os corpos e batem a cabeça ao chão, reverenciando a presença do caboclo.
Quando entramos nos terreiros estão sempre lotados e os frequentadores estão espalhados pelo Brasil e por São Paulo. A grande realidade desta religião é que poucos têm a coragem de assumir o amor pelos soar dos atabaques e pelo culto aos orixás. Quando se pergunta qual a sua crença, poucos respondem em alto e bom som que é umbandista.


Além disso, muitas pessoas costumam ter mais de uma religião. Os famosos católicos-não-frequentantes usam o catolicismo como um escudo social, do qual eles geralmente utilizam quando indagados sobre suas crenças. Porém, quase sempre há uma segunda fé envolvida. Enquanto bradam serem católicos vão ao terreiro tomar passes e fazer oferendas. Essas e outras questões prejudicam a real situação das estatísticas.


Mesmo assim, a pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Censo Demográfico de 2010, aponta crescimento dos frequentadores umbandistas assumidos no Estado de São Paulo. No Censo de 2000 cerca de 79.119 mil (19,91%) pessoas se diziam umbandistas. Já na apuração atualizada de 2010, o número chega a 103.554 (25,42%).
Voltando à realidade palpitante, o suor pinga do rosto dos médiuns. O calor era forte, mas nada parecia os cansar. Quase cinco horas de giras. Palmas batendo, cantos contínuos e incorporações com entidades que giravam feito piões. A fé é o que os mantém firmes e fortes até o final. Quando a gira vai chegando ao fim, a assistência – lugar onde ficam aqueles que buscam ajuda – já está vazia, com duas ou três pessoas. Mas os médiuns não vão embora enquanto a missão não chega ao fim.


– Eu fecho a nossa gira, com Deus e Nossa Senhora. Eu fecho a nossa gira sambolêpemba de angola.


Essas falas são repetidas. Sinos tocam. “Viva e Deus”, diz o pai de santo, dessa vez ao se despedir dos seus filhos por mais um dia de caridade prestada.
Axé!


Trecho retirado do livro "Religiões de São Paulo", de Michelle Palermi